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quarta-feira, 26 de junho de 2013

Primos e Pombos


O objetivo desta postagem é apresentar uma aplicação do Princípio das Casas dos Pombos.
Princípio das casas dos pombos: se n pombos devem ser postos em m casas, e se n>m, então pelo menos uma casa irá conter mais de um pombo.
Em termos matemáticos:
Princípio das casas dos pombos: se o número de elementos de um conjunto finito X é maior do que o número de elementos de um outro conjunto Y, então uma função de X em Y não pode ser injetiva.
Utilizaremos este princípio para provar a infinitude dos números primos. Ou seja, demonstraremos o seguinte
Teorema: existem infinitos números primos.
O resultado acima enunciado já foi demonstrado, há mais de dois mil anos, por Euclides de Alexandria na célebre obra Os Elementos. A demonstração aqui apresentado é um pouco mais recente, data de novembro de 2012 e é devida a Dustin G. Mixon.

A rigor, demonstraremos que a quantidade de números primos não pode ser igual a três. Com isso (que parece ser uma meta bastante boba, visto que todos sabemos que existem mais do que três números primos), nosso objetivo é deixar mais clara as ideias empregadas. Esperamos, então, que após compreender o argumento o leitor generalize a demonstração (substituindo 3 por um número finito arbitrário n e fazendo as demais adaptações necessárias como, por exemplo, mantendo k em vez de usar 11).

Vamos, enfim, para a prova:

Suponha que exista apenas uma quantidade finita de números primos, digamos igual a 3:
p1<p2<p3
onde p1=2. Tome um número natural k tal que
2k>(k+1)3
Por exemplo, podemos tomar k=11, pois
211=2048>1728=(11+1)3
Como escolhemos k=11, vamos considerar o seguinte conjunto:
X={1,2,3,...,211}={1,2,3,...,2047,2048}
Agora, vamos definir uma função f cujo domínio seja o conjunto X. Para tanto, observemos que como consequência do Teorema Fundamental da Aritmética, cada inteiro positivo x pode ser escrito, de forma única, como
x=pk11pk22pk33
onde k1,k2,k3 são números naturais (aqui, estamos admitindo que o zero é natural). Assim, podemos definir f:XN3 colocando,
f(x)=f(pk11pk22pk33)=(k1,k2,k3)xX
Observe que f é injetiva, pois se tivermos x1=pk11pk22pk33 e x2=pm11pm22pm33, então
f(x1)=f(x2)(k1,k2,k3)=(m1,m2,m3)k1=m1,k2=m2,k3=m3pk11pk22pk33=pm11pm22pm33x1=x2

Note que, para cada xX, temos 211x e, portanto, 
log2211log2x
Além disso, para cada i=1,2,3, temos pi2 e, portanto,
log2pi1
Segue deste último fato que kilog2piki para todos os índices i=1,2,3. Utilizando estas desigualdades (e as propriedades dos logaritmos) podemos escrever
11=log2211log2x=log2(pk11pk22pk33)=log2pk11+log2pk22+log2pk33=k1log2p1+k2log2p2+k3log2p3k1+k2+k3max{k1,k2,k3}

Isso mostra que k1, k2 e k3 nunca são maiores do que 11, qualquer que seja xX. Deste modo, a imagem de X pela função f está contida no conjunto
Y={(k1,k2,k3)N3;k1,k2,k311}
Isto significa que nada nos impede de tomar o contradomínio da função f como sendo o conjunto YR3. Mas isso viola o princípio das casas dos pombos, pois não é possível acomodar 2048 pombos em apenas 1728 casas (ou seja, o domínio da função f tem 211=2048 elementos enquanto que sua imagem tem, no máximo, 123=1728. Portanto, f não poderia ser injetiva).  Logo, a quantidade de números primos não pode ser 3. Na generalização (obtida quando argumentamos com n em vez de 3), concluímos que a quantidade não pode ser número finito algum, donde segue que existem infinitos números primos.
Desafio para o leitor: como sabemos que um número k com a propriedade mencionada sempre existe? Ou seja, como sabemos que, para qualquer natural n, sempre existe um número natural k tal que 2k>(k+1)n?
Referência: Another simple proof of infinitude of primes.
Erros podem ser relatados aqui.

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