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domingo, 11 de dezembro de 2011

Uma Aplicação do Princípio da Boa Ordenação (ou "O Algoritmo da Divisão Parte I")


Hoje dou início a uma série de postagens cujo objetivo é apresentar a demonstração do algoritmo da divisão, explicando-a em detalhes. A parte de hoje é particularmente interessante devido ao fato de fazer uso do "Princípio da Boa Ordenação".

De modo geral, dividir a por b significa encontrar um número c tal que a=bc. Quando se restringe esta operação ao conjunto Z dos números inteiros nem sempre é possível encontrar c que satisfaça a última igualdade. Neste caso, diz-se que a divisão "deixa resto". Quando é possível encontrar o c diz-se que a divisão é exata. No caso em que o resto é igual a zero diz-se que b divide a. No caso em que o resto é maior do que zero diz-se que b não divide a.

Exemplo: a divisão de 10 por 2 é exata (10=2×5), em outras palavras: 2 divide 10 (isto significa que o resto é zero). A divisão de 11 por 2 não é exata (11=2×5+1), em outras palavras: 2 não divide 10 (isto significa que o resto não é zero – neste caso o resto é 1).

A proposição abaixo (conhecida como “algoritmo da divisão”) cuida de assegurar a existência e unicidade do resto r (eventualmente nulo) e do quociente q em qualquer divisão entre dois inteiros a e b, com b0 (ou seja, ela diz que sempre que você for efetuar uma divisão você encontrará um cociente e um resto (menor do que o cociente) e, além disso, que sempre que você dividir o mesmo número pelo mesmo divisor você sempre encontrará o mesmo cociente e o mesmo resto).
Proposição (algoritmo da divisão): Se a é um número inteiro qualquer e b é um número inteiro maior do que zero, então existem dois números inteiros q e r tais que a=bq+r, onde 0r<b. Além disso, q e r são únicos.
Nesta primeira postagem da série, vamos mostrar que dados a,bZ com b0, de fato existem q e r inteiros tais que a=bq+r.
Para demonstrar a existência destes números vamos utilizar um fato (extremamente intuitivo) conhecido como o Princípio da Boa Ordem (ou da Boa Ordenação), que diz o seguinte:

Todo subconjunto não vazio do conjunto dos números naturais possui um menor elemento

Usaremos, também, a propriedade arquimediana:

Dados um inteiro a e um inteiro não nulo b, existe um inteiro n tal que nb>a.

Seja a um número inteiro qualquer e seja b um número inteiro maior do que zero. Considere o conjunto:
S={y;y=abx com xZ e y0}
Note, inicialmente, que S está contido no conjunto N dos números naturais (para S não ser subconjunto de N precisaria conter algum número negativo - o que não ocorre, pois ele só contém números inteiros positivos).

Note, agora, que S não é um conjunto vazio (para mostrar que um conjunto não é vazio tudo o que se tem a fazer é exibir um elemento que pertença a ele. Neste caso, para exibir um elemento de S, basta tomar um inteiro x tal que x(b)>a, que existe em razão da propriedade arquimediana. Com esta escolha de x, vamos obter abx>0 e, portanto, y=abx pertence a S).

Como S é um subconjunto não vazio de N pode-se afirmar, em virtude do Princípio da Boa Ordenação, que S possui um menor elemento. Vamos chamar este elemento de r (dizer que r é o menor elemento de S significa que se k pertence a S então, necessariamente, kr).

Como r pertence a S ele se enquadra na definição dos elementos de S, em outras palavras, ele é do formato abx com com xZ. Ainda de outro modo: existe um inteiro x tal que r=abx. Se chamarmos este x de q obtemos r=abq ou, equivalentemente, a=bq+r.

Fica, assim, provado que os dois inteiros q e r mencionados no enunciado da Proposição 2 de fato existem!!!

Na próxima postagem da série mostramos que 0r<b.

Observações:

- Dissemos que S está contido em N devido ao fato de não conter negativos, pois assumimos implicitamente que N={0,1,2,...}. Se considerássemos, como se faz algumas vezes, que 0N então o argumento não mudaria em nada, pois S continuaria sendo subconjunto de N. Entretanto, teríamos que ter escrito que "para S não ser subconjunto de N precisaria conter algum número negativo ou o zero".

- Muito embora o Princípio da Boa Ordenação seja "óbvio" (sendo tratado como axioma em algumas abordagens, tais como nesta que foi apresentada) é possível demonstrá-lo a partir dos chamados "Axiomas de Peano" (possivelmente faremos isso futuramente). Estes axiomas são importantes devido ao fato de que todas as propriedades dos elementos do conjunto dos naturais são deduzidas a partir deles (inclusive a propriedade de todo subconjunto não vazio de N possuir menor elemento).

- Essa demonstração pode parecer esquisita, pois se baseia em definir um conjunto de maneira muito conveniente - o que pode ser uma tarefa meio difícil de motivar (mesmo tendo a dica de que se usa o Princípio da Boa Ordem, necessitaríamos, talvez, de bastante criatividade para "descobrir" a demonstração). Essa é uma das belezas do trabalho dos matemáticos: eles descobrem (ou inventam?) coisas que, por vezes, não são óbvias (incluindo maneiras não óbvias de demonstrar coisas óbvias). Mas, uma vez que aprendemos o raciocínio empregado, podemos participar do prazer da compreensão.

- A propósito, sobre definir conjuntos há muita coisa interessante que pode ser dita, as quais esperamos ter ocasião futura de discutir (ao leitor interessando neste tema, sugerimos que pesquise sobre o Paradoxo de Russel).

Referências: na última postagem da série.
Erros podem ser relatados aqui.

Veja + sobre divisão:

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